Ano novo, temas novos…?
- Marcel Fernandes
- há 7 dias
- 2 min de leitura

Com a chegada de 2026 - como em quase todas as viradas - tenho visto alguns posts de promessas de ano novo, artigos falando de “como deixar 2025 para trás e fazer 2026 ser o seu ano”, matérias na tv sobre como atingir as metas propostas para 2026, e afins. O que, para falar a verdade, eu acho muito legal até. Gosto da esperança que muitas vezes enxergamos quando o calendário muda e como isso parece motivar a gente a ser melhor hoje do que fomos ontem.
Ao mesmo tempo, penso o quanto nos forçamos a fazer mudanças e quantas das vezes elas realmente fazem sentido, sabe? Na tirinha que eu fiz, o cliente fala com a psicóloga de várias coisas que gostaria de mudar para o processo, mas uma mudança pouco orgânica em que o “vamos falar sobre isso” dá lugar ao “eu não quero nem pensar sobre isso”. O que é válido, cada um sabe das dores e do que consegue ou não sustentar. Porém, como psicólogo, penso que nosso trabalho acaba sendo bem mais efetivo quando a gente se abre para falar de coisas que não aguentamos mais falar sobre. É até comum psicólogos escutarem seus clientes falando “nossa, tô parecendo um disco arranhado” como se ficar falando da mesma coisa em terapia fosse perda de tempo. Pode até ser, mas do lado do terapeuta a repetição sempre desperta a atenção e penso que demanda uma escuta ainda mais atenciosa.
Pensando um pouco na literatura, dois autores pelos quais eu tenho muito apreço já disseram coisas parecidas sobre o assunto. Joan Didion, jornalista e romancista estadunidense, uma vez escreveu que “os temas são sempre os mesmos”. Enquanto aqui no Hemisfério Sul, Gabriel Garcia Marquez, o Gabo, falava que todo grande autor estaria sempre escrevendo o mesmo livro. Gosto dessas frases, pois sinto que a repetição tem um valor bastante negativo na sociedade como um todo - tudo é sempre sobre a próxima novidade -; e Gabo e Didion acabam por valorizar e acolher esse “disco arranhado” que acaba por vezes nos representando.

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